sábado, 28 de novembro de 2009

No Rio para o Hutúz, grafiteiro Daze critica a cena atual



Entrevista muito boa do William Helal Filho com perguntas do TOZ, AFA e BINHO para O Globo.


RIO - O homem é um capítulo vivo da história do grafite e vai reforçar a edição de 10 anos do festival Hutúz. Chris "Daze" Ellis integrava a turma da pesada que pintava vagões de metrô em Nova York nos anos 70. É cúmplice da ascensão de uma arte underground que se espalhou pelas ruas do mundo e conquistou as galerias de grã-finos. Ainda hoje um dos grandes nomes do grafite, Daze, que já veio ao Brasil outras vezes, está aqui para um seminário, amanhã, no CCBB. A pedido da Megazine, ele respondeu a perguntas dos grafiteiros Tomaz "Toz" Viana (Fleshbeckcrew), Alexandre "Afa" Ferreira (Cufa) e Binho Ribeiro, de São Paulo.

Veja imagens de trabalhos do grafiteiro Daze

TOMAZ VIANA (TOZ): Qual a diferença entre a cena do grafite de Nova York atual e a da época em que você começou?

DAZE: Com a exposição cada vez maior do grafite, o ego dos writers está falando muito alto. As pessoas só querem sucesso imediato. É a era do "eu". E a nova geração está desconectada da antiga, não tem senso de história. Não vejo muita coisa boa sendo produzida.

TOZ: Expor seus trabalhos numa galeria mudou sua percepção sobre o grafite?

DAZE: Quando comecei, nem sonhava viver do grafite. Queria ser autor de HQs. Mas em 1980 vieram as exposições em galerias. Minha primeira mostra, no mesmo ano, não mudou muito o que pensava sobre grafite, porque continuei pintando na rua. Mas ampliou os horizontes.

TOZ: Qual é a diferença, para você, entre fazer grafite na rua e no seu estúdio?

DAZE: Na rua, a resposta é imediata. As pessoas passam e comentam. Os trabalhos são bem diretos, e gosto usar temas alto astral. Já no estúdio, o trabalho é cerebral, e posso ser mais intimista. Eu crio algo que as pessoas vão ver com calma, numa galeria.

AFA: Como você vê a cena e o estilo dos grafiteiros no Rio?

DAZE: O Rio é um dos melhores lugares do mundo para o grafite. No Brasil como um todo, as raízes do grafite não são antigas como nos EUA, e, por isso, os grafiteiros não têm problema em tentar coisas novas. São mais experimentais.

AFA: No Brasil, os writers desenvolvem atividades sociais com o grafite nas favelas. O que acha disso?

DAZE: Estive no Brasil outras vezes e vi como o grafite salva vidas, mantendo garotos longe do tráfico. Eu mesmo cresci num ambiente violento, na Nova York dos anos 70, e o grafite me deixou fora disso. Há iniciativas parecidas nos EUA, mas tudo depende do governo. No Brasil, vocês aprenderam a não confiar no dinheiro público.

BINHO RIBEIRO: Que análise você faz do grafite, hoje, no mundo inteiro?

DAZE: Rio, São Paulo, Paris, Barcelona, Los Angeles e outras cidades estão entre os locais mais importantes, e Nova York ainda é a meca do grafite. Todos esses lugares têm particularidades. Em Los Angeles, por exemplo, cada trabalho ocupa muito mais espaço do que em NY, onde vários grafiteiros pintam o mesmo muro.

BINHO: Como será a cena do grafite daqui a dez anos?

DAZE: O grafite vai ser reconhecido como a arte mais influente da história, por tocar gente do mundo inteiro. Em toda cidade há obras com as quais as pessoas se identificam.

O GLOBO: A globalização e a web afetaram o grafite?

DAZE: Bastante. Por um lado, facilitaram o acesso a obras do mundo todo. Mas vejo muitos writers saindo das ruas por isso. Eles pintam uma parede, fotografam a obra para publicá-la na web e cobrem o muro de branco, para pintar de novo. Com isso, seu trabalho deixa de circular na rua, que é o ambiente tradicional do grafite.

O GLOBO: O grafite ainda é uma arte do underground?

DAZE: As raízes estarão sempre no underground. E, por maior que seja a aceitação hoje, muita gente ainda confunde grafite com vandalismo.